sexta-feira, 4 de abril de 2008

BARQUINHOS DE PAPEL


Visto a arte

de ver

o não visto

Avisto

ao longe

alto mar

montanhas de aço

Desembaraço o aço

Faço

Barquinhos de papel.

quinta-feira, 20 de março de 2008

FASCINANTE SATÉLITE


Assim como o poeta, também gosto dela assim como ela é - Satélite. Porém, como negar o fascínio que este satélite sempre exerceu e ainda exerce? Uma geração vai e outra geração vem sobre a face da terra, mas a lua continua lá no alto, nos seus quartos observando, muda e gélida, os desamores da humanidade, pois como disse o escritor bíblico ela é a "fiel testemunha no céu".

A inocência de uma criança vê a lua crescente como o sorriso do céu.

A mais instigante de suas fases - a lua cheia - provoca tantos mitos! Seria a inspiração dos poetas, dos namorados? A mãe do lobsomem? Deusa dos índios? Bobagens! O que importa mesmo é que ela não gosta de brilhar sozinha, generosamente divide a luz que recebe do sol com a noite terrestre.

Satélite, mais do que o brilho da noite, tu és tão necessário para manter o equilíbrio de nosso planeta!

Oh, cândida lua! Mesmo não fatigada de mais-valia, eu gosto de ti assim: coisa linda e útil em si, - Satélite ... Fascinante Satélite.

domingo, 9 de março de 2008

EMERGÊNCIA

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Mario Quintana


É claro que não podemos viver de sonhos, mas também não podemos morrer de realidade. É necessário haver equilíbrio. Por isso gosto tanto dos poetas: eles me salvam do afogamento no mar da realidade.
Tomo emprestadas as palavras do Grande Drummond: "estes poetas são meus. De todo o orgulho, de toda a precisão se incorporam ao fatal meu lado esquerdo."

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Vermelho devaneio


Elas estão por toda parte da cidade em vários quintais ou enfeitando ruas e praças. Em quase todos os lugares por onde passo, lá estão elas, aquelas frondosas e, por que não dizer, majestosas árvores. Seu vermelho intenso atraem os admiradores da natureza e por isso não consigo passar por elas sem deixar de observá-las. Elas florecem nessa época do ano para dar cor e beleza ao nosso tórrido verão, que parece ficar ainda mais quente com vermelho tinto dos flamboaiãs. São árvores comuns em nosso "país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza" e, com certeza, elas contribuem para dar credibilidade a esses versos.

O contraste entre o vermelho do flamboaiã e o azul do céu dá um colorido tão especial ao verão, que chega a mexer com a minha fantasiosa imaginação. Reafirmo, são muito comuns e talvez por isso os olhares transeuntes acostumados com elas não param para observá-las, mas o meu, o meu olhar pára; o ônibus continua o seu cotidiano percurso, enquanto o meu olhar continua no flamboaiã, me estico para vê-lo passar e, como num passe de mágica, ele desaparece e outras paisagens tomam o seu lugar, e outras e mais outras, porém os olhos do meu pensamento só conseguem ver aquela árvore rubi que tanto me encanta. De repente, ele aparece novamente: é outro flamboaiã fortalecendo ainda mais o meu vermelho devaneio.

E assim, das janelas de casa ou dos ônibus prossigo contemplando essas árvores que tingem o verão de vermelho, cor quente e encantadora! Então, encantada com a rubra árvore pinto mentalmente uma bela tela, mais colorida do que as de Van Gogh ou de Miró, com as cores do verão tropical: dourado, anil e . . . é claro, vermelho! _ Um quadro de devaneio.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Pôr-do-sol em camburi

Fim de tarde, fim de dezembro, fim de ano, começo de verão! O sol espalha no horizonte o seu tom alaranjado e, lentamente, vai se escondendo atrás do mar. Ao contrário do sol, as obras na praia prosseguem em ritmo acelerado, afinal é verão e por isso é preciso deixar a praia bonita para os turistas.

Da janela do ônibus vejo o contraste entre a constância da natureza e a efemeridade dos homens. As pessoas no calçadão caminhando ou correndo, parecem não se incomodar com as obras. Há também os quiosqueiros de plantão com outro tipo de exercício: o levantamento de copo. Assim, todos seguem a sua rotina vespertina, enquanto eu, fora da minha rotina tento ver o mar, mas... quão difícil é isso agora devido às montanhas de terras jogadas em toda a orla!
Então, olho novamente para o calçadão e, em meio a tantos corpos jovens e "sarados", observo uma graciosa anciã, caminhando com muita dificuldade, amparada por duas pessoas. Ela precisa de ajuda, mas não desanima, não se entrega à velhice; parece lutar por qualidade de vida. E assim, com o olhar parado naqueles cabelos brancos, voltei por um instante ao hospital, onde poucas horas antes, assistia à luta de minha tia pela sobrevivência. Essa triste lembrança fez tudo se tornar muito vazio para mim. Corpos e praia bonitos, preparados para verão - tudo isso perde o sentido diante da fragilidade da vida. Tudo é vaidade!
Bem, passado o "momento melancolia" e já perdida a imagem daquelas cãs, volto os meus olhos aos derradeiros raios de sol, que ainda insistem em brilhar no céu de Camburi. As luzes artificiais começam iluminar a cidade, as obras na praia continuam a todo vapor, as pessoas continuam a sua rotina (agora noturna) e a vida, apesar de frágil, continua... inclusive a minha querida tia ainda continua, com a ajuda dos aparelhos!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

FLOR DE CACTO



Um pontinho vermelho atraiu os meus olhos àquele pequeno cacto que mora no terraço de minha casa. "Que coisa seria aquela no meio de tantos pequeninos e poderosos espinhos? Teria sido trazida pelo vento?" Não resisti à curiosidade e, num olhar mais atento, percebi que aquela 'coisa" brotava do cacto, vinha de suas entranhas rompendo os espinhos, que sempre espetavam os distraídos que esbarravam no pequeno vaso causando uma fina e incômoda dor. Eu já senti essa dorzinha, por isso não podia acreditar no que meus olhos viam: o pontinho vermelho era uma delicada florzinha, que parecia não se importar com os malvados espinhos. Novamente me perguntei: "como ela conseguia botar a carinha para fora no meio daquela cerca de espinhos?"Então, encantada, passei a acompanhar o crescimento da florzinha e notei que a cada dia ela crescia mais formosa e mais forte, com uma capacidade inacreditável de de vencer a barreira de espinhos, porém sem perder a delicadeza.

Com o tempo, percebi que o que me encantava naquela pequena flor era a nossa similaridade. Na verdade, todos os dias eu subia ao terraço para me encontrar, pois eu sou flor de cacto, fragilidade e força em um mesmo ser. Delicada? Sim, no entanto, capaz de superar os espinhos da vida com uma força que vem não sei como, mas vem, sempre vem... uma força comum a quase todas as mulheres. Por isso não provoque... é cor de flor de cacto!